Alterações no volume e periodicidade das precipitações e mau uso dos aquíferos estão entre os fatores que promovem a escassez de água em parte do país. Foto:Leo Ramos

Ambiente

Crise hídrica: “São Paulo está sentada em água e nós ignoramos nossa história”


por Pedro Ribeiro Nogueira, do Portal Aprendiz

[caption id="attachment_127594" align="alignleft" width="350"] Alterações no volume e periodicidade das precipitações e mau uso dos aquíferos estão entre os fatores que promovem a escassez de água em parte do país. Foto:Leo Ramos[/caption] Com o fim do verão, se aproxima a seca típica dos meses de outono e inverno. Se as chuvas que caíram acima da média nos últimos meses aliviaram o estresse hídrico do Sistema Cantareira, o prognóstico é que, nos próximos meses, sem as águas de março, faltará água e São Paulo estará diante de um colapso inédito: uma cidade de mais de 10 milhões de habitantes ficará sem seu recurso mais fundamental. O governo do Estado, depois de passar meses – coincidentemente eleitorais – negando o racionamento, já anuncia que poderão começar rodízios de 5 dias sem abastecimento para dois com, o temido 5×2. Toda a cidade já sente os efeitos da falta d’água, sendo que nas periferias, é ainda mais acentuado. Diante deste cenário, o que foi feito e o que resta fazer? Para começar a responder a algumas dessas perguntas, a Aliança pela Água e Assembléia Estadual da Água, realizaram, na noite de terça-feira (24/2), no vão livre do Masp, a Aula Pública “Água: Crise, Soluções e Mobilizações Sociais”. Ponto positivo Lembrando o velho dito de que as crises também são momentos de oportunidade, Cesar Pegoraro, da ONG SOS Mata Atlântica perguntou ao público, de cerca de 150 pessoas, se eles agora sabiam de onde vinha a água que os abastecia. Diante da resposta afirmativa da maioria, reforçou que hoje a relação das pessoas com a água na cidade mudou. “Nós estamos sentados entre a nascente do Saracura e do Iguatemi, dois córregos que nós tapamos, matamos. São Paulo está sentada em água e nós ignoramos nossa história, não aprendemos a respeitar a água. A nossa legislação prevê rios de tipo 4, ou seja, que são usados para gerar energia e diluir esgoto. O desrespeito está previsto em lei”, avalia. Para ele, a crise poderia ser usada para investimento público em cisternas residenciais, que diminuiriam o consumo residencial, e para aumentar a participação popular na gestão da água. “Nós não temos que buscar água cada vez mais longe. Temos que restaurar a qualidade aqui dentro. São Paulo tem um número enorme de nascentes: porque elas nunca foram aproveitadas para uso da população?”, questiona. Mananciais e habitação popular Na zona sul de São Paulo, uma área com quase um milhão de metros quadrados, conhecida como Parque dos Búfalos, enfrenta uma batalha e um grande dilema: foram anunciadas a construção de 193 torres de habitação popular em cima da área que serve como o único parque da região para mais de 500 mil pessoas e que abriga sete nascentes e mata atlântica originária e preservada. Essa luta já foi retratada pelo jornal El País. Para Wesley Rosa, morador da região e ativista do Parque dos Búfalos, a construção dos conjuntos seria um contrassenso na época de crise hídrica. A visão de Wesley é reforçada pela urbanista e professora da Faculdade de Urbanismo e Arquitetura da USP, Paula Santoro. Segundo ela, há que se haver um esforço para preservação das áreas verdes da zona sul, que deve caminhar em conjunto com a oferta de melhores condições de vida das mais de um milhão de pessoas que vivem em situação precária naquela zona. “Essa ideia de sempre ir levando para longe as habitações populares sempre foi criticada por nós urbanistas. Temos o centro com muitas habitações ociosas: porque não trazer para o centro e preservar a área de mananciais? O centro não pode ter só shopping”, defende Santoro, ressaltando é preciso reconhecer o direito à moradia das pessoas. “É uma Guarulhos que vive lá. Tem que haver uma política que reconheça essas áreas e dê condição para que se produza água com quantidade e qualidade, preservando as fontes”, afirma a urbanista. Colapso e repressão Com fogo se chama água? Essa foi uma das soluções dos moradores da periferia de Itu para enfrentar, no último ano, o racionamento. Após muitas reclamações e abastecimento deficitário nas áreas pobres, foi apenas com o recurso de barricadas de fogo que os moradores conseguiram que a Prefeitura atendesse as demandas dos moradores da cidade do interior de São Paulo. “Para começo de conversa há que se falar que, como em São Paulo, nossa gestão de água foi privatizada”, aponta Pedro Scavacini, do Movimento Itu Vai Parar, “e a concessionária, que deveria sanar a falta d’água, nunca cumpriu esse papel”. Ele relata que, em 2013, começaram os primeiros cortes e a água ia para as casas a cada 72 horas. “Isso quando chegava”. “A falta d’água alterou drasticamente o cotidiano da cidade. As pessoas não tinham como suprir as necessidades mais básicas e corriqueiras. A água encareceu, os caminhões pipa escacearam. Isso gerou, numa cidade pacata, conservadora e católica, enormes manifestações que foram iniciadas por idosos, mulheres e crianças. E essas mesmas manifestações foram duramente reprimidas”, relata Scavacini. O que farão dez milhões de sedentos? “As situações que a gente viu em Itu serão muito mais graves numa metrópole com 10 milhões de pessoas. Estamos falando de saque, desagregação social, violência. Enfim, estamos falando de uma situação que nunca foi vista no mundo”, analisou o professor de Gestão Pública da Universidade de São Paulo, Pablo Ortellado. Segundo ele, na falta de um movimento capaz de organizar essa revolta, como o Movimento Passe Livre, na questão da mobilidade, ou o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, no campo da moradia, é preciso elaborar objetivos políticos que canalizem em ação consciente a insatisfação civil. Para ele, a solução da crise está no longo prazo, mas é necessário pensar em demandas e paliativos urgentes para atender a população. “Precisamos, por exemplo, dividir o ônus dessa crise. Não é segredo para ninguém que temos um rodízio branco, onde os pobres pagam o peso do descaso e bairros ricos não sofrem nenhum revés. Comprar caixas d’água para a população, garantir o direito à agua para todos e impedir a remessa de lucros para os acionistas da Sabesp são algumas dessas ações.” Ortellado também defende a responsabilização dos gestores pela má condução dessa crise, que deveriam ter decretado um rodízio responsável enquanto havia tempo, mas não o fizeram para evitar o ônus eleitoral dessas medidas. “O governador não tocou nesse assunto durante a campanha porque sabia que sua imagem poderia ser manchada, assim como sua popularidade. Mas agora é inevitável”, aponta. Sentados no local onde há quinze dias um protesto pela questão da água foi impedido de sair pela Polícia Militar, Ortellado afirmou ao público que teme pela escalada da violência policial e lançou um alerta: “A forma como nós vamos lidar com isso será observada pelo mundo inteiro, que passa por mudanças climáticas. Temos uma enorme responsabilidade”, finaliza. (Portal Aprendiz/Envolverde) * Publicado originalmente no Portal Aprendiz.
As toras de angelim vermelho cortadas na floresta. Foto: Rogério Almeida

Ambiente

Grilagem e desmatamento contam a história do Jari


por Rogério Almeida, da Agência Pública

O avanço de particulares sobre terras públicas da Amazônia ameaça o território das comunidades tradicionais há mais de um século, sob os olhos cúmplices do Estado O cearense José Júlio de Andrade é tido como o latifundiário pioneiro da região do Jari. Chegou à Amazônia no apogeu do ciclo da borracha, final do século XIX, e se apossou de uma extensão de terras maior que o território do Jari. Para subordinar a população local o coronel Andrade usava a prática do aviamento, ou seja, comprava borracha, balata ou a castanha em troca do fornecimento de insumos para as populações extrativistas. Como os preços sempre favoráveis ao comerciante, os coletores estavam sempre ao devendo ao dono do barracão, e eram obrigados a trabalhar de graça para ele. O expediente ainda hoje é usado na Amazônia. Mas os extrativistas se revoltaram, e Andrade teve que fugir para o Rio de Janeiro. Além de comerciante, o grileiro de terras foi prefeito em Almeirim quando Magalhães Barata mandava na política do Pará, e Getúlio Vargas, no país. Em 1948 um grupo de portugueses e um brasileiro passaram a dominar terras e o mercado deixado por Andrade. Para explorar produtos extrativistas e agrícolas da região, criaram três empresas: a Jari Indústria e Comércio e a Companhia Industrial do Amapá para a comercialização dos produtos, e a Companhia de Navegação Jari S\A, a partir de José Júlio. É deste grupo que o multimilionário Daniel Ludwig adquiriu parte das terras no final da década de 1960. O estadunidense chegou a controlar mais de 200 empresas espalhadas pelo planeta nos setores da finança, do transporte, da mineração e da agroindústria. O Jari de Daniel Ludwig Ludwig não foi o primeiro estadunidense a tentar subordinar a floresta Amazônia aos seus interesses. Em 1927 o também milionário Henry Ford fundou seu próprio reino – a Fordlândia – na cidade de Aveiro, às margens do rio Tapajós, oeste paraense. A domesticação da seringueira em grande escala fracassou. Ainda hoje existem vestígios da fábrica, vila e do monocultivo. O compatriota Daniel bem que poderia ter atentado para a experiência de Ford. Ele chegou na Amazônia no ápice do estado de exceção e, com apoio do governo militar, instalou um complexo agroindustrial que englobava a produção de celulose em grande escala, arroz, criação de gado, e o extrativismo mineral de bauxita e caulim. Aeroporto, porto, rodovia e ferrovia compunham a infraestrutura, além de uma fábrica para a produção de celulose importada do Japão. [caption id="attachment_129998" align="aligncenter" width="540"] As toras de angelim vermelho cortadas na floresta. Foto: Rogério Almeida[/caption]   O desmatamento de mais de 200 mil hectares de floresta densa, para o cultivo de espécies exóticas – com o objetivo de produzir celulose – foi primeiro ato do polêmico projeto do milionário, que invadiu o território de indígenas e ribeirinhos que viviam do extrativismo no entorno dos rios Paru e Cajari. Os conflitos entre os seguranças da empresa e os moradores tradicionais eram constantes. Crise do Projeto e Novos Donos Nos anos 1980 e 1990 o debate ambientalista abriu espaço na agenda política do país, e transbordou as fronteiras nacionais com a militância do seringueiro Chico Mendes, executado em 1988. As críticas contra o Projeto Jari ganharam o mundo. O jornalista Lúcio Flávio Pinto, que escreveu um livro sobre o assunto (Jari: Toda a Verdade Sobre o Projeto de Ludwig), conta que no início dos anos da década de 1980, os lucros sumiram e o Jari foi transferido a um grupo de 27 empresários brasileiros, liderado pelo Banco do Brasil e por Augusto Trajano de Azevedo Antunes, do Grupo Caemi, em operação coordenada pelo ministro Antônio Delfim Netto. Avalizado pelo governo, o grupo comprometeu-se a pagar a quantia de 280 milhões de dólares em 35 anos. Mas a crise continuou. Em 1999 o Projeto foi adquirido por dois acionistas de São Paulo da direção do Grupo ORSA, presidido pelo empresário Sérgio Amoroso, pela soma simbólica de 1 dólar – as dívidas totalizavam cerca de 414 milhões de dólares. A negociação com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) durou dois anos. O projeto passou a ter o nome de Grupo Jari, e os empresários firmaram compromisso em sanar passivos sociais e ambientais. (Agência Pública/Envolverde) Leia também a reportagem Empate no Jari. * Publicado originalmente no site Agência Pública.
Foto: http://www.shutterstock.com/

Ambiente

Jornalismo sustentável: uma conta no vermelho


por Dal Marcondes*

No final de 2013 escrevi esse texto para um projeto especial da revista Ideia Sustentável. Nele comento o fato de que as mídias que fizeram a opção de trabalhar com pautas ambientais e de sustentabilidade estão enfrentando uma crise de financiamento. Aliás, é um tema recorrente. Releia o artigo completo: Alguns anos atrás, um executivo de uma grande empresa se aproximou do jornalista Vilmar Berna, um dos ícones da mídia ambiental no Brasil, e queixou-se: “Investi milhões para melhorar o desempenho ambiental da minha empresa e ninguém se importou.” A resposta de Berna saiu em forma de pergunta: “Contou para quem?” Esse é um dos dilemas do jornalismo que tem a sustentabilidade como eixo transversal. As empresas, mesmo aquelas que alegam “ter sustentabilidade no DNA”, não incorporam esses valores a seus planos de comunicação. As mídias que cobrem o cotidiano da sustentabilidade não recebem recursos para bancar suas atividades, e aquelas que recebem as verbas de publicidade de empresas comprometidas com a sustentabilidade não têm, na maioria das vezes, nenhum compromisso editorial com o assunto. Grande parte das empresas quer ver suas ações em sustentabilidade em destaque nas mesmas mídias que dão visibilidade a seus resultados econômicos. Muitas vezes esses não são canais comunicantes, ou seja, as iniciativas que agregam valor sob o ponto de vista social e ambiental não são pauta para os meios de comunicação convencionais. Pelo contrário, são poucos os editores de economia que já compreendem os valores da sustentabilidade e não tratam com desdém ações que não estão focadas no estrito resultado financeiro das empresas. O desafio de se construir cadeias de valor sustentáveis e comprometer empresas com uma economia menos predatória é, também, um desafio que passa pela forma de se comunicar a sustentabilidade, de maneira a mostrar os resultados de ações e investimentos de forma tangível, compreensível para a sociedade em geral, mas, principalmente, compreensível para os investidores, justamente aqueles que precisam acreditar nesses novos valores. É fato que nos últimos anos as pautas sobre investimentos sociais e ambientais ganharam espaço nas editorias de economia. No entanto, ainda é pouco e, na maior parte das vezes apenas são parte de “projetos especiais”. Esses espaços tendem a se ampliar, mas de forma muito lenta diante da urgência dos desafios ambientais e sociais de classe planetária. As transformações nos modelos econômicos e empresariais precisam de uma grande escala de informações, de tal maneira que sociedade, acionistas, executivos e empreendedores compreendam quais são os dilemas e como podem enfrentá-los sem comprometer a viabilidade econômica de suas organizações. [caption id="attachment_102169" align="alignright" width="340"] Foto: http://www.shutterstock.com/[/caption] Como todas as revoluções da história, a sustentabilidade também tem suas vanguardas. São líderes, empresas, organizações sociais, intelectuais e, também, meios de comunicação que vão além da estreita visão do resultado financeiro trimestral e ajudam a difundir um modelo de desenvolvimento capaz de oferecer qualidade de vida a todas as pessoas. Entre essas vanguardas estão alguns jornalistas e meios de comunicação que se dedicam à difusão de informações e conhecimentos que ajudam a estruturar uma economia sustentável. São meios que fizeram a opção por um tipo de jornalismo que não olha a realidade através de retrovisores, mas lançam o olhar à frente e ajudam a formular as questões estruturantes de uma sociedade menos desigual. Da mesma maneira que as empresas que se lançam na vanguarda da sustentabilidade, os meios de comunicação que abraçam essa pauta pagam o preço do pioneirismo e do desbravamento de mercados. Defendem bandeiras que ainda encontram muitos opositores e desinformação. São meios que abrem espaço a ideias inovadoras e a formadores de opinião que navegam contra a corrente da economia convencional. Essas publicações, entre as quais se alinham Ideia Sustentável e Agência Envolverde, além de dezenas de outras, deveriam ser canais preferenciais para o aprofundamento do debate social e econômico da sustentabilidade. No entanto, em sua grande parte, estão sufocadas pela falta de oxigênio financeiro. Financiamento à Informação Um dos debates importantes para a sociedade brasileira é como o país financia a informação jornalística oferecida à sociedade. Na maior parte das vezes, o modelo de financiamento passa pelo mercado publicitário, ou seja, anúncios de produtos ou serviços são responsáveis pelo financiamento das mídias. Essa prática é comum em diversas partes do mundo; no entanto, em muitos lugares, governos ou organizações da sociedade civil procuram gerar um equilíbrio entre informações que o público deseja e informações de que a sociedade necessita. O financiamento estrito via mercado publicitário gera distorções, principalmente porque o “anunciante” tem interesses próprios e seu objetivo é atingir o máximo de pessoas possível. Portanto, veículos que atuam com informação qualificada têm dificuldade em receber esse tipo de aporte de recursos, uma vez que atingem públicos altamente qualificados, mas em número limitado. O aporte de publicidade normalmente é feito por fatores de número de pessoas atingidas e grupos de interesse. Isso dá um alento a mídias que atuam de forma segmentada em nichos profissionais e setoriais, ou seja, setores de interesse de consumo específico. No caso dos meios de comunicação voltados para a sustentabilidade, isso não ocorre, porque não há uma demanda identificável por produtos e serviços que possa atrair a publicidade de grandes empresas. Entre os jornalistas que atuam na área de sustentabilidade, há um certo consenso sobre a necessidade de que as empresas comprometidas com um modelo de desenvolvimento menos predatório deveriam destinar um percentual de sua publicidade institucional para o fortalecimento da cobertura jornalística com foco nessa nova economia. Dessa forma haveria mais veículos e mais profissionais interessados em cobrir sustentabilidade de uma forma sistêmica. Há uma preocupação entre editores dessa área em relação à queda das verbas publicitárias aportadas nesses meios após a Rio+20, que ocorreu em junho de 2012. Essa preocupação ganha mais fôlego diante da constatação de que os próximos anos serão tempos de grandes eventos esportivos e, também, de eleições, e o cenário da comunicação deve ter esse viés. Chamar a atenção das empresas para a necessidade de financiar a informação e o conhecimento social da sustentabilidade é uma prioridade para que as transformações na economia ganhem escala. * Dal Marcondes é diretor executivo da Agência Envolverde. ** Publicado originalmente no site Ideia Sustentável, em 4 de dezembro de 2013.
Foto: Seapa/ Reprodução/ Fotos Públicas

Ambiente

Nos caminhos do boi, os rastros a apagar


por Washington Novaes*

[caption id="attachment_129959" align="aligncenter" width="540"] Foto: Seapa/ Reprodução/ Fotos Públicas[/caption]   No mesmo dia 20 último, quando foi publicado nesta página texto do autor destas linhas que, num de seus tópicos, relacionava problemas do desmatamento e de ângulos dos nossos métodos agropecuários com mudanças climáticas e perda da biodiversidade, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO-ONU) editava boletim em que seu secretário-geral, José Graziano da Silva, alertava: "O modelo de produção agrícola que predomina hoje em dia não é adequado para os novos desafios da segurança alimentar no século 21" - mesmo sabendo que o número de pessoas que passam fome no mundo se reduziu em 100 milhões na última década e está hoje em 805 milhões no total. A forma como estamos produzindo "já não é aceitável", acrescentou ele. Porque não evita a degradação dos solos e a perda da biodiversidade - ambos essenciais também para as gerações futuras. E por isso tudo "precisamos de uma mudança de paradigma: sistemas alimentares devem ser mais sustentáveis, inclusivos e resilientes". Até mesmo para que se possa enfrentar o problema das mudanças climáticas. E sem essa disposição serão afetadas a produção de alimentos, sua disponibilidade e a estabilidade de seus componentes - já que nesse âmbito todo "os solos, que abrigam pelo menos um quarto da biodiversidade global, são decisivos no ciclo do carbono". A agroecologia, concluiu ele, é "uma forma promissora de avançar com a produção de alimentos de modo mais sustentável". Nos mesmos dias, no Fórum Mundial para a Agricultura e a Alimentação, em Berlim, o secretário-geral acrescentou ainda que não se pode esquecer que até 2050 precisaremos de "um aumento de 60% na produção de alimentos, 50% na geração de energia e 40% mais no uso da água" (altamente problemático no panorama atual) - sem falar no aumento indispensável na produção de biocombustíveis. Também nesse artigo da última sexta-feira foi mencionado o estudo Radiografia das Pastagens, que trata de "atividades agropecuárias e aquecimento global (mitos e verdades sobre o CH4 e CO2), de autoria do médico veterinário Flavio Prada e da engenheira agrônoma Laura de Santis Prada. É um texto para o qual planejadores de governos, empresários do setor agropecuário e estudiosos do clima precisam voltar sua atenção. Porque enfatiza o problema de geração de carbono pelo gado bovino no País - temos 210 milhões de cabeças de gado em 160 milhões de hectares de pastagens. Os autores do estudo fizeram uma revisão "de trabalhos publicados por pesquisadores de renome nacional nas áreas de anatomia e nutrição de ruminantes". E demonstram que "os bovinos zebus (Bos indicus) eliminam 30% mais fezes que os bovinos europeus (Bos taurus), devido à maior capacidade de rúmen e ao tamanho do intestino". Também porque "a digestibilidade é maior 15% no gado europeu". Por isso "o gado zebu elimina mais CO2 (dióxido de carbono) e CH4" (gás metano). Lembram eles ainda que trabalho da Amazon Integrated Carbon Analysis alerta para "a intoxicação da floresta amazônica", com enormes riscos para o meio ambiente - "a floresta emitiu 0,51 pentagramas de carbono, equivalentes a 510 milhões de toneladas de carbono, valor muito acima do esperado". Com o forte avanço recente da pecuária em grande parte da Amazônia, a preocupação cresce, já que - como mencionado aqui algumas vezes - estudos da Embrapa mostram que cada boi emite 58 quilos de metano por ano (em seus arrotos e eructações); e que o metano é mais de 20 vezes mais prejudicial que o CO2. O modelo pecuário brasileiro, afirmam os autores do estudo, com menor absorção de matéria seca nos alimentos e maior eliminação de fezes que no modelo europeu, é muito mais problemático, ainda mais que na Europa e nos Estados Unidos o modelo predominante é o do semiconfinamento, em que as rações podem ser mais equilibradas e dosadas - enquanto por aqui quase todo o plantel é de gado zebu ou azebuado, em pastagens não controladas, com variedades de gramíneas pouco adequadas e, por isso mesmo, acrescidas de insumos químicos que tentam compensar a deficiência em nutrientes. Só que, "quanto mais baixa a qualidade da forragem, maior a produção de metano pelo gado, o que obriga o pecuarista a gastar mais com alimentação de melhor qualidade". E mais, "o gado que pasta nessas áreas necessita constantemente de mineralização complementar: caso contrário voltam a aparecer as desnutrições, com vários tipos de patologias, diretas como 'cara inchada' ou indiretas por agentes anaeróbicos (botulismo). Nestas andanças, come mais, defeca mais e apresenta menor digestibilidade e metabolização dos alimentos consumidos; e rumina menos, pois perde muito tempo à procura de alimentos e água, para melhor digestão". Pode parecer esotérico, absurdo, inconsequente relacionar a carne da mesa de cada dia com mudanças climáticas; insustentabilidade de modelo agrícola ou pecuário; perda de biodiversidade; menor competitividade, nas exportações, com produtos concorrentes de outros continentes; segurança alimentar; distribuição de renda no mundo. Mas não há como escapar. A cada dia mais, a ciência e as instituições de âmbito mundial avançam por esses terrenos. Melhor que cuidemos logo, antes de sermos obrigados pela geografia política, pela economia global, por tudo. O noticiário de cada dia nos mostra também que não há como pensar em vivermos isolados de tudo, cegos. A realidade nos assalta. Por mais difícil e incômodo que seja repensar tudo e mudar nossas práticas, teremos de fazê-lo, em todos os lugares, todos os momentos. Repetindo palavras de uma instituição como a FAO-ONU e de seu dirigente máximo, "o modelo de produção agrícola que predomina hoje em dia não é adequado para os desafios da segurança alimentar no século 21 (...). Precisa ser revisto (...). Não é aceitável". * Washington Novaes é jornalista. ** Publicado originalmente no site O Estado de S. Paulo.


receba nossa newsletter

email: *


No período chuvoso, as águas do Rio Tanguro costumavam chegar próximo do nível da ponte, bem diferente de agora. Foto: Rafael Govari-ISA

Como no Sudeste, cidades do Mato Grosso correm risco de racionamento de água

Estiagem incomum neste início de 2015 e aumento do consumo, aliados a sistemas trabalhando no limite, colocam cidades do Mato Grosso em risco de sofrer racionamento de água. Diminuir o consumo, fazer investimentos e recuperar e manter a floresta são alternativas para evitar a crise hídrica. A maioria dos mato-grossenses assiste indiferente a falta de água que assola os moradores do Sudeste. As preocupações são outras como a falta de rodovias e outras infraestruturas. Grande parte deles nem imagina que muitos municípios do Mato Grosso podem estar à beira de um colapso no abastecimento de água. Pesquisa feita pelo ISA (Instituto Socioambiental) no site do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), que tem uma estação do 9º Distrito de Meteorologia de Mato Grosso, localizada a 9 km da cidade de Canarana, verificou que as chuvas estão abaixo da média no atual período. Nas últimas 14 temporadas (que se estendem de junho a maio), a média tem sido de 1.841 mm de chuva. Somando as chuvas que caíram de junho do ano passado a janeiro deste ano, o total é de 1.123 mm em Canarana. seriam necessários ainda 718 mm de fevereiro a maio para alcançar a média, lembrando que na maioria dos anos a chuva cessa no início de abril. [caption id="attachment_129963" align="aligncenter" width="540"] No período chuvoso, as águas do Rio Tanguro costumavam chegar próximo do nível da ponte, bem diferente de agora. Foto: Rafael Govari-ISA[/caption]   As poucas chuvas deixaram o nível dos rios, em pleno período chuvoso, parecido com os níveis do período da seca. Para Ildo Gromann, responsável de rede da CAB (Companhia Ambiental de Canarana), empresa privada de abastecimento de água, o Rio Tanguro que abastece a cidade e se localiza a 7 km do centro, está menos de um metro acima do nível registrado no período da seca. Ele afirma que se os níveis do rio baixarem muito e as bombas não conseguirem captar água, uma solução seria barrar o Tanguro. Além disso, apesar de a cidade ter cerca de 500 poços, rasos e artesianos, que não sobrecarregam a CAB, muitos estão secando em plena época chuvosa. Gromann avalia que na seca muitos desses poços estarão sem água e quase toda cidade utilizará o sistema, que terá de captar mais água do Tanguro e não se sabe qual será o seu nível nos meses de seca. Ele lembra que a adutora que traz a água para cidade já está operando com sua capacidade máxima. E, além disso, a cada dia, em média, é feita uma nova ligação de água na cidade,, que está em pleno desenvolvimento. A colonização da região Araguaia Xingu começou na década de 1970 por sulistas que tinham um perfil agrícola. Seu Natalício Djalmo Kuhn chegou a região em 1976 para trabalhar na agricultura e está assustado :“Em quase 40 anos de Mato Grosso, eu nunca vi uma estiagem como essa”, disse. Somando-se a chuva abaixo da média, os poços secando, o crescimento populacional e sistema operando no limite, o futuro pode trazer problemas. “Racionamento acho difícil, mas não está descartado”, diz o representante da CAB. Tudo depende de como irá se comportar o tempo e as chuvas até o mês de maio, quando se encerra o período chuvoso. Os institutos de meteorologia, entretanto, não preveem muita chuva até lá. Abundância não livra o Mato Grosso de uma possível crise hídrica Conforme notícia publicada em novembro do ano passado no jornal A Gazeta de Cuiabá, o maior de Mato Grosso, o estado pode passar por uma crise de falta de água semelhante à que ocorre em São Paulo em menos de 10 anos. Segundo o periódico, alguns municípios mato-grossenses enfrentam racionamento desde 2013 (saiba mais). Além da falta de água, há problemas com sua qualidade por conta da contaminação por esgoto, fertilizantes e defensivos agrícolas. “Hoje, Mato Grosso é exportador de água, mas a continuar nesse ritmo de degradação, em menos de 10 anos sofreremos com graves problemas de falta de água, em uma situação idêntica à de São Paulo. [caption id="attachment_129964" align="aligncenter" width="540"] Poços artesianos estão secando em Canarana em pleno período de chuva[/caption]   Com o crescimento das cidades e a impermeabilização dos solos, os lençóis freáticos não absorvem a quantidade necessária da água da chuva. Somado às mudanças climáticas e à poluição dos rios, o cenário é preocupante”, avaliou Décio Siebert, presidente do Comitê do Rio Seputuba e especialista em recursos hídricos. Para evitar racionamento, em primeiro lugar é preciso de água e para ter água é preciso de chuva. Mas outras medidas podem ser tomadas para ajudar. Uma delas é conscientizar a população a economizar. Em Canarana, a média de consumo diário de água por pessoa, ultrapassa os 250 litros. A ONU considera que uma pessoa pode viver bem com menos da metade, com 110 litros de água por dia. Edson Prado, secretário de Saneamento e Serviços Urbanos de Querência, cidade vizinha de Canarana, concorda que a população da região precisa urgentemente se conscientizar que a água é um bem finito. A companhia de água da cidade, administrada pela prefeitura, tem estrutura para atender até 35 mil habitantes, quase o triplo da população atual. A situação em Querência, abastecida com a água de sete poços artesianos, é tranquila no momento, mas Prado lembra que os moradores da região precisam começar a economizar. Também precisam ser levados em consideração os investimentos. Com o crescimento das cidades mato-grossenses, os sistemas de algumas cidades, diferentemente de Querência, estão trabalhando no limite de sua capacidade. Em Canarana, por exemplo, trata-se da construção pela Companhia Ambiental de mais uma adutora para trazer água do Rio Tanguro e que estará concluída este ano. A proteção da floresta e a recuperação das matas ciliares também são primordiais para a água. É com isso que há mais de 10 anos a Campanha Y Ikatu Xingu (Salva a água boa do Xingu) vem trabalhando, na proteção e recuperação das nascentes do Rio Xingu, na região de Canarana. Estima-se que já foram desmatados quase seis milhões de hectares de vegetação nativa nesta bacia (33% da cobertura vegetal original), causando assoreamento dos rios afluentes do Xingu. Até o momento, já foram restaurados mais de dois mil hectares de matas ciliares que se encontram em diferentes estágios de crescimento. (ISA/Envolverde) * Publicado originalmente no site Instituto Socioambiental.


por Rafael Govari, do ISA
Foto: Pedro França/Agência Senado

ANA oferece mais de 3 mil vagas em cursos gratuitos sobre recursos hídricos

[caption id="attachment_129352" align="alignright" width="340"] Foto: Pedro França/Agência Senado[/caption] Capacitações acontecem na modalidade a distância e sem tutoria. Seis temas estão disponíveis, como: Lei das Águas, Sala de Situação e comitês de bacias Estão abertas as inscrições para 3.100 vagas em cursos gratuitos oferecidos pela Agência Nacional de Águas (ANA) na modalidade de ensino a distância (EaD). As inscrições podem ser realizadas através do site http://eadana.hospedagemdesites.ws/ até 1º de março ou antes desta data, caso todas as vagas sejam preenchidas antes. Há capacitações com os seguintes temas: Sala de Situação: Fique por Dentro; Cuidando das Águas; Caminho das Águas; Comitê de Bacias: o que É e o que Faz?; Comitê de Bacias: Práticas e Procedimentos; e Lei das Águas. Os interessados podem se inscrever em até dois cursos simultaneamente e receberão a confirmação de matrícula no primeiro dia da capacitação. A seleção será feita por ordem de inscrição. Os alunos que conseguirem 60% de aproveitamento nas avaliações terão direito a um certificado, sendo que o tempo de duração das atividades pode ser menor que o previsto, conforme o desempenho de cada um. Para facilitar a aprendizagem, as atividades estão estruturadas através de uma navegação sequencial entre módulos e o material está disponível em formato PDF. Com quatro turmas e uma carga de quatro horas, o curso Sala de Situação: Fique por Dentro busca apresentar a Sala de Situação da ANA, seu funcionamento e sua importância no contexto de eventos críticos, como cheias e secas. Cada grupo terá 100 alunos e as atividades acontecerão respectivamente nos seguintes períodos de março: de 3 a 8; de 9 a 15; de 16 a 22; e de 23 a 29. O curso Cuidando das Águas oferece 500 vagas e tem um total de 40 horas. Esta capacitação visa a promover uma reflexão sobre a responsabilidade de cada um no uso sustentável da água. Outro foco é sobre as possibilidades de melhoria da qualidade dos recursos hídricos, em cooperação com os setores usuários, organizações não governamentais, governos e entidades de meio ambiente. Também com 40 horas de duração, o curso Caminho das Águas tem 600 vagas disponíveis. A capacitação, que vai de 3 a 29 de março, tem como objetivo promover a educação e a conscientização da sociedade a partir de conceitos e práticas relacionados aos recursos hídricos. Para o curso Lei das Águas, a ANA oferece 800 vagas, divididas em duas turmas. A primeira vai acontecer de 3 a 15 de março e a segunda vai de 16 a 29 de março. Nas 20 horas de atividades, os alunos poderão compreender a Política Nacional de Recursos Hídricos e os conceitos básicos da gestão destes recursos. De 3 a 15 de março acontecem as 20 horas de atividades do curso Comitê de Bacias: o que É e o que Faz? que tem 400 vagas. O objetivo é ensinar sobre as atribuições e responsabilidades dos comitês e incentivar a participação da sociedade na gestão de recursos hídricos. Com 20 horas e 400 vagas, a capacitação Comitê de Bacias: Práticas e Procedimentos vai de 16 a 29 de março. Este curso busca ensinar a dinâmica de funcionamento da estrutura organizacional dos comitês para melhorar o processo de gestão nesses colegiados, que funcionam como “parlamentos das águas”. Capacitação A ANA realiza capacitações para as entidades que compõem o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SINGREH) e para toda a sociedade brasileira. O objetivo dos cursos é estimular a conservação e o uso sustentável da água, além da participação cidadã na implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos. Em 2014, a Agência capacitou mais de 22 mil pessoas. Para 2015, a expectativa é bater este recorde. Saiba mais no Portal da Capacitação da ANA: http://capacitacao.ana.gov.br/Paginas/default.aspx.


por Agência Nacional de Águas
Área de floresta sendo queimada ilegalmente para dar espaço a criação de gado, na floresta Nacional do Jamanxim, no Pará, próximo a BR 163. Foto: © Rodrigo Baléia / Greenpeace

Um “respiro” para a floresta

A Polícia Federal prendeu, no último final de semana, Ezequiel Castanha, considerado o maior desmatador da Amazônia [caption id="attachment_129944" align="aligncenter" width="540"] Área de floresta sendo queimada ilegalmente para dar espaço a criação de gado, na floresta Nacional do Jamanxim, no Pará, próximo a BR 163. Foto: © Rodrigo Baléia / Greenpeace[/caption]   No último sábado a Polícia Federal prendeu, em Novo Progresso, no Pará Ezequiel Antônio Castanha, um conhecido contraventor ambiental, considerado um dos maiores grileiros e desmatadores do Brasil. A gangue de Castanha é acusada de ter desmatado pelo menos 15 mil hectares na Amazônia, num período de dez anos. A prisão foi mais um dos desdobramentos da “Operação Castanheira”, deflagrada no ano passado. De acordo com o pedido de prisão preventiva expedido pela justiça do Pará, Ezequiel é acusado por crimes como invasão de terras públicas, desmatamento de Unidades de Conservação, furto de bens da União, falsidade ideológica, além de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Castanha acumula, ainda, uma dívida que passa de R$ 30 milhões em multas ambientais. O bando atuava no município de Novo Progresso-PA, principalmente ao longo da rodovia BR-163, grilando e desmatando terras públicas para depois vendê-las. Na região, Ezequiel liderou por muito tempo o movimento contra a criação da Floresta Nacional (Flona) Jamanxim, junto com Giovany Marcelino Pascoal - também preso na Operação Castanheira. Operações como essa, que identificam e penalizam pessoas que cometem crimes contra a floresta, são importantes no combate ao desmatamento, mas, isoladas, não resolvem o problema. A Amazônia vem sendo ameaçada por vários fatores, geralmente conectados entre si, como a grilagem, desmatamento, exploração ilegal de madeira e avanço do agronegócio sobre as áreas de floresta. Para piorar, a bancada ruralista no Congresso Nacional vem atuando fortemente para enfraquecer a legislação que garante proteção à floresta e seus povos, em um claro ataque às áreas protegidas e terras indígenas. O objetivo é abrir essas áreas aos seus interesses econômicos – ou tirá-los do caminho de vez. A impunidade, aliada à histórica ausência de Estado na Amazônia, tem perpetuado o ciclo vicioso de destruição da floresta. Fim do desmatamento exige mudanças profundas Apesar da ótima notícia para o meio ambiente, sabemos que, com o profundo problema de falta de governança na Amazônia, é bem possível que outras “gangues” ocupem rapidamente a lacuna deixada por Castanha sem serem incomodadas. A grilagem de terras tem sido uma prática comum ao longo de todo o processo de ocupação da Amazônia, que apresenta situação fundiária crítica e caótica. Na tentativa de promover a regularização fundiária, o governo lançou, em 2009, o programa Terra Legal, criado para regularizar antigas ocupações na Amazônia. O programa abriu espaço para a obtenção de títulos de terras que foram griladas e desmatadas ilegalmente, agravando ainda mais o problema. É um cenário que combina a ação de “mestres” em burlar a lei com brechas legais, ausência de fiscalização e falta de capacidade da justiça para tratar tantos crimes juntos. É preciso que governos e toda a sociedade passem a olhar com mais atenção para a região e discutam com seriedade os problemas da Amazônia. E todos podem colaborar para isso. O governo deve empenhar esforços para proteger a floresta e atacar de fato o problema da regularização fundiária na Amazônia. É preciso garantir a real implementação das unidades de conservação e terras indígenas existentes, além da criação de novas áreas protegidas, bem como a manutenção integral dos direitos constitucionais dos povos tradicionais ao seu território ancestral. Estudos apontam que as áreas protegidas e terras indígenas são o mecanismo mais eficiente no combate ao desmatamento, garantindo, assim, a proteção do clima. Empresas que atuam na Amazônia também devem fazer sua parte, banindo o desmatamento de suas cadeias de produção, excluindo fornecedores envolvidos na destruição da floresta e em outros crimes associados, a exemplo da Moratória da Soja e do Compromisso Público da Pecuária. Por fim, a sociedade pode contribuir pressionando as outras partes para que, juntos, possamos seguir no caminho para um mundo mais saudável e com florestas. Foi seguindo esta trilha que mais de 1 milhão de brasileiros já declarou apoio ao um projeto de lei pelo desmatamento zero, que visa proteger as florestas remanescentes. (Greenpeace/ Envolverde) * Publicado originalmente no site Greenpeace Brasil.


por Redação do Greenpeace Brasil
Foto: Sabesp/Divulgação

Recuperação de reservatórios não reduz necessidade de economizar água

[caption id="attachment_129955" align="aligncenter" width="450"] Foto: Sabesp/Divulgação[/caption]   A recente elevação do nível dos reservatórios do Rio Paraíba do Sul e a saída do Santa Branca do volume morto estão longe de permitir relaxamento nos pedidos por economia de água, afirma a vice-presidenta do Comitê de Integração da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul (Ceivap), Vera Lúcia Teixeira. A orientação de reduzir o consumo, para Vera, deve ser feita "em letras garrafais". "Os reservatórios aumentaram em função das chuvas que caíram em fevereiro, mas isso não representa nada se levarmos em consideração 2014. No ano passado, o nível chegou a 35% neste período, e hoje está na faixa de 7,5%. Com 35% no ano passado, entramos no volume morto depois do período seco", disse Vera Lúcia, que se reunirá amanhã (26) com representantes da Agência Nacional de Águas (ANA) e do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Segundo ela, a meta é que os reservatórios cheguem a 15% em março, mas a situação só pode ser considerada confortável se os reservatórios atingirem 50%. No dia 24, segundo o boletim diário da ANA, o reservatório de Santa Branca, um dos quatro que compõem a Bacia do Paraíba do Sul, deixou o volume morto, com elevação de seu nível útil de -0,03% para 0,08%. O nível total dos reservatórios, no entanto, caiu de 7,53% para 7,49%, puxado pelo maior reservatório, o Paraibuna, que caiu de 2,01% para 1,93%. O reservatório de Funil, o único que fica dentro do estado do Rio de Janeiro, teve queda no nível útil de 34,56% para 34,43%. Assim como Santa Branca, Jaguari teve pequeno aumento, de 8,15% para 8,26%. Como o período seco começa depois de março, e os reservatórios estão em níveis ainda mais baixos que no ano passado, uma das medidas para economizar água é reduzir a vazão da barragem da Usina Elevatória de Santa Cecília. A estrutura bombeia parte da água do Paraíba do Sul para o Rio Guandu, onde é tratada e captada para a região metropolitana do Rio. A vazão total, que chega a 200 metros cúbicos por segundo (m³/s) em períodos de cheia, e hoje está em 140 m³/s, vai cair gradativamente para 110 m³/s entre 1º de março e 30 de junho. A redução será feita integralmente na água desviada para o Guandu, que vão cair de 100 m³/s para 70 m³/s, pois a água que segue ao longo do Paraíba do Sul não pode ficar abaixo de 40 m³/s. "Essa vazão ecológica não pode baixar de forma alguma", alertou Vera. Ela prevê problemas ambientais se a vazão dos rios cair e o despejo de esgoto se mantiver. "Se você tem um volume de esgoto, que era jogado numa vazão de 190 m³/s, e esse mesmo volume é lançado em 70 m³/s, tem um impacto que ainda não se pode calcular. Isso só vamos conseguir fazer a partir de análises." O Ministério Público Federal recomendou que o governo do estado do Rio, a ANA, o Cevaip, o ONS e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) apresentem, em cinco dias, uma proposta de plano de contingência para o uso dos recursos hídricos. A vice-presidenta do Cevaip informou que tomou conhecimento da recomendação pela imprensa e disse que o comitê trabalha na elaboração do plano recomendado, com base em um diagnóstico que indica as ações a serem tomadas. A ANA e a Aneel não se pronunciaram sobre a recomendação até o fechamento desta matéria, e o ONS informou que ainda não foi notificado oficialmente. De acordo com o governador Luiz Fernando Pezão, é preciso olhar a questão com otimismo e obedecer aos acordos com a Justiça e os estados de São Paulo e Minas Gerais para o uso da água do Paraíba do Sul. "A boa notícia é que diversos reservatórios estão se recuperando. Temos que olhar com otimismo também. Ontem, recebi uma foto do reservatório de Funil, que chegou a estar com 3% de sua capacidade, e bateu 33%", disse o governador. O Cevaip planeja reunião, no próximo dia 11, com prefeitos e vereadores de municípios do Médio Paraíba do Sul, para sensibilizá-los sobre a necessidade de resgatar a vegetação ao longo do rio. "Precisamos pensar em um corredor ecológico na região", defendeu Vera, lembrando no trajeto do rio foram estabelecidas muitas áreas de pastagem. (Agência Brasil/Envolverde) * Edição: Stênio Ribeiro. ** Publicado originalmente no site Agência Brasil.


por Vinicius Lisboa, da Agência Brasil
carnaval

Ressaca moral das marcas após o carnaval

Campanhas de marketing que foram muito comentadas nas redes sociais  e acabaram virando notícia nos mais diferentes e relevantes jornais, revistas e portais de notícias do país me chamaram a atenção nesse carnaval. Nos dois casos, duas marcas tiveram um grande volume de publicidade negativa atreladas a seus nomes: a cerveja Skol e o aplicativo de relacionamento Tinder. Os detalhes das campanhas e como viraram publicidade negativa vocês já devem conhecer então, vou direto aos pontos que mais me chamaram a atenção (para quem não conhece, coloco no fim do artigo um resumo do que aconteceu). A responsabilidade pelo uso do produto/serviço Tanto em um caso como em outro, as duas campanhas esbarram em valores e conceitos que estão intimamente ligados ao uso do seu produto/serviço. O consumo de bebida alcóolica deixa as pessoas mais simpáticas, mais abertas, mais risonhas mas também com menos poder de decisão acertada. Quantas bobagens não fazemos quando estamos um pouco alcoolizados e no dia seguinte bate a ressaca moral puxa, eu fiz aquilo mesmo??? Que vergonha (ou que arrependimento!)”.  Uma campanha – de bebida alcóolica  - que incentiva o “deixar o não em casa” e o “topo antes de saber a pergunta” ignora, completamente,  a responsabilidade pelo uso consciente/responsável do seu produto.  Não é “só” um incentivo ao desrespeito ao “não feminino” que pode ficar subentendido, mas também a ideia de deixar rolar e acontecer tudo o que for possível já que é carnaval  mesmo e, portanto, deve ser só farra e “sem moderação”. Nada adequado para uma marca de cerveja, não acham? Já no caso do Tinder, é brilhante a ideia do Ministério da Saúde (MS) de usar tais plataformas  de relacionamento casual (Tinder e Hornet) para atingirem seus públicos alvos.  O que não é nada brilhante é a ideia do Tinder de “ignorar” que se tratava de uma campanha super a ver com seu serviço e público alvo e assim querer remover os perfis fakes do MS. Não paro de pensar aqui o quanto faltou à responsável pela comunicação do Tinder (que disse que a empresa removeria os perfis falsos) pensar um ou dois minutos a mais, antes de tomar tal decisão, e assim evitar o mal estar nas redes sociais e na imprensa. A reação das empresas A Ambev teve uma reação excelente e rapidamente se desculpou, dizendo que não tinha a intenção de ser lida daquela forma e que as frases geraram entendimento dúbio. Logo começou a substituição dos anúncios com as frases “Tomou bota? Vai atrás do trio. Neste carnaval, respeite”; e “Quando um não quer, o outro vai dançar. Neste carnaval, respeite.” Já no caso do Tinder, bem, algo que poderia, no mínimo, passar desapercebido sem gerar nenhuma notícia, ou ainda, na melhor das hipóteses, virar um case de sucesso e adaptabilidade (como fez o Hornet) gerou uma baita publicidade negativa para a empresa. Busquei informações e não achei mais nenhuma notícia a respeito que mostrasse mudança de postura da empresa. Ao que tudo indica, o Tinder removeu mesmo os perfis do MS. O olhar dos publicitários Fui conversar com alguns amigos publicitários para saber qual era a impressão deles a respeito do caso da Skol e ouvi que, para a maior parte deles, parecia um grande exagero do público, que não merecia tal polêmica e que, provavelmente, se fosse uma marca menor e menos expressiva fazendo a mesma campanha, ela teria passado desapercebida. Em relação ao impacto de ser uma marca grande ou não, concordei com meus colegas, ainda que com ressalvas: uma marca menor não tem tanto anúncio espalhado pela cidade, atinge um público bem menor e, talvez, menos crítico, e, para além de tudo isso, tem bem menos responsabilidade de fazer certo do que tem uma Skol, líder de mercado. A difícil integração da sustentabilidade em todas as áreas das empresas Demonstrar incentivo ao consumo consciente de bebidas alcóolicas é um tema recorrente na indústria desse tipo de produto – diria até que é condição sine qua non do setor, no mundo todo. A Ambev (dona da marca Skol), por exemplo, realiza há mais de 10 anos o “Programa Ambev de Consumo Responsável” com diversas iniciativas no tema. É por isso que quando coloco as duas questões no mesmo tabuleiro - de um lado, a campanha da Skol; e, de outro, o “Programa Ambev de Consumo Responsável” - a primeira pergunta que me vêm à cabeça é: como pode tamanha desconexão entre o marketing da Skol e a responsabilidade no uso do produto, tão propagada por todo o setor? Ficam evidentes os silos individuais da empresa e que um lado não conversa com o outro, não convence o outro e que ambos não trabalham juntos. E aqui, para mim, está o grande desafio das empresas: fazer o pensamento de sustentabilidade (gerar e manter geração de valor no longo prazo) pautar a tomada de decisões em todos os âmbitos e em todos os níveis da organização.  Não basta fazer a materialidade, a matriz de riscos, entender os temas relevantes e deixar essa agenda com o departamento de sustentabilidade. É preciso transformar esse insumo em estratégia corporativa – e depois essa estratégia em plano -  plano esse que deve permear todas as áreas da empresa. Enquanto tal integração não se tornar realidade, casos contraditórios como esse continuarão a acontecer, dia após dia, nas mais diversas empresas, dos mais diversos setores. Torço para que a Ambev faça desse limão uma limonada ainda melhor e, como líder de mercado com várias de suas diversas marcas, possa ser exemplo do que fazer e como fazer, pautando o mercado também na publicidade de seus produtos. Já quanto ao Tinder, também torço para que essa situação seja um aprendizado e que da próxima vez façam também um belo case de ação pró—ativa, ao invés de espontaneamente gerarem publicidade negativa. Para quem não sabe das duas polêmicas, aqui vai um resumo das mesmas A campanha mais importante do ano para a Skol (a época que mais se vende cerveja no Brasil é o carnaval) feita pela agência  F/Nazca Saatchi & Saatchi foi “quase” um tiro no pé. Os anúncios espalhados pelos pontos de ônibus com as frases “esqueci o não em casa” e “topo antes de saber a pergunta”  receberam atenção maior dos internautas quando duas amigas postaram fotos suas no Instagram e no Facebook, nas quais alteravam os anúncios originais e criticavam a campanha da cerveja já que tais frases poderiam incentivar à cultura de desprezo pelo “não” feminino e, portanto, endossar atos forçados desde beijos desrespeitosamente roubados até o estupro. [caption id="attachment_130005" align="aligncenter" width="540"] Campanha original com intervenção das amigas, em 11/02/15[/caption] [caption id="attachment_130006" align="aligncenter" width="635"] Campanha alterada pela Skol em 13/02/15[/caption]   No caso do Tinder, o que gerou comentários negativos nas redes e na imprensa foi a reação da empresa em relação à campanha de carnaval promovida pelo Ministério da Saúde (MS) para prevenção à AIDS e outras DSTs, idealizada pelo DigitalGroup. Essa campanha utilizava a plataforma, por meios de perfis falsos (fakes), para alertar os usuários sobre os riscos de se fazer sexo sem camisinha. Entre outras mídias, o MS utilizou dois sites de relacionamento muito procurados, o Tinder e o Hornet (esse último voltado para o público gay), e neles criou perfis falsos de pessoas que procuravam parceiros para sexo eventual e sem preservativo. Quando uma outra pessoa (real) iniciava contato com esse perfil falso, o ministério da saúde enviava uma mensagem alertando para a importância do uso da camisinha. O Tinder não gostou nada do que viu e disse que iria remover os perfis falsos por não permitir uso para propaganda em sua plataforma. Já o Hornet, que também não autoriza publicidade no aplicativo, teve uma postura um tanto quanto diferente, e disse que essa era uma exceção a ser concedida, pois a iniciativa era ótima e eles iriam ajudar o MS a expandir o alcance da campanha. A reação do Tinder gerou um grande número de notícias e postagens nas redes sociais, e a maioria das pessoas se colocou contra a decisão tomada pelo aplicativo.   * Vanessa Callau é consultora de sustentabilidade estratégica e gestão de riscos, com mais de 14 anos de experiência e formação pela Harvard Extension School. Em seu portfolio de carreira já atuou junto a dezenas de empresas líderes em seus segmentos, com foco principal na geração e manutenção de valor para as empresas, seus acionistas e demais stakeholders.


por Vanessa Callau*
Rajendra Pachauri. Foto: ONU/Rick Bajornas

Painel da ONU sobre Clima nomeia chefe interino após renúncia da Pachauri

[caption id="attachment_129949" align="alignleft" width="340"] Rajendra Pachauri. Foto: ONU/Rick Bajornas[/caption] Especialista indiano, que estava no posto desde 2002, apresentou carta de demissão, com efeito imediato; segundo agência de notícias, Pachauri afirmou que não está apto a "exercer a forte liderança e dedicação" que o cargo exige. O Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, Ipcc, decidiu na terça-feira (24) promover o vice-chefe do grupo, Ismail El Gizouli, a presidente interino. A decisão foi tomada em Nairóbi, no Quênia, durante a 41ª sessão do órgão. El Gizouli irá substituir Rajendra Pachauri, que pediu demissão do cargo após ocupar a presidência do Ipcc nos últimos 13 anos. Missão O diretor-executivo do Programa da ONU para o Meio Ambiente, Pnuma, acompanhou a decisão do Painel. Achim Steiner declarou que a nomeação de Gizouli vai garantir "que a missão do Ipcc de combater a mudança climática possa continuar sem interrupções". Steiner falou também sobre sua expectativa de uma sessão produtiva do Painel, nas reuniões que seguem até sexta-feira. O mandato de Rajendra Pachauri terminaria em outubro. Segundo agências de notícias, o ex-chefe do Ipcc afirmou que não está apto "a exercer a forte liderança e dedicação" exigidas pelo cargo. O especialista indiano teria explicado ainda sua impossibilidade de viajar até o Quênia para participar da sessão do painel. (Rádio ONU/Envolverde) * Publicado originalmente no site Rádio ONU.


por Leda Letra, da Rádio ONU
senado

Aprovado reforço a campanhas educativas nas políticas de gestão de resíduos sólidos

O Plenário do Senado aprovou, nesta quinta-feira (26), projeto que inclui a realização de campanhas educativas sobre limpeza urbana e manejo de lixo entre os itens obrigatórios dos planos estaduais e municipais de resíduos sólidos (PLC 114/2013). Conforme o projeto, os governos estaduais poderão ter acesso a recursos da União destinados a empreendimentos, serviços e campanhas educativas, desde que elaborem o plano estadual de resíduos sólidos, previstos na Lei 12.305/2010, que trata do tema. — Isso já explica a relevância desse projeto que visa à divulgação de cuidados com o meio ambiente para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos brasileiros — ressaltou Luiz Henrique, relator da proposta na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ). Os municípios que realizarem as campanhas educativas terão prioridade no acesso aos recursos da União destinados à política. As campanhas também deverão estar incluídas entre as atividades associadas à gestão de resíduos sólidos. Nas microrregiões instituídas pelos estados, as campanhas educativas deverão integrar os planos de gestão, e compor o conteúdo mínimo dos planos estaduais. Aprovado na Câmara, o projeto foi encaminhado ao Senado em dezembro de 2013. A proposição recebeu parecer favorável da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, onde teve emendas apresentadas pelo relator, Luiz Henrique, e da Comissão de Meio Ambiente, Defesa do Consumidor e Fiscalização e Controle (CMA), onde foi relatado pelo senador Cícero Lucena. A matéria é de autoria do deputado Onofre Santo Agostini (PSD-SC). Na justificação do projeto, que altera dispositivos da Lei 12.305/2010, o autor argumenta que muitas pessoas desconhecem o adequado manejo a ser dado a resíduos sólidos gerados, sobretudo, nas áreas urbanas, daí a importância de incorporar campanhas educativas às previsões da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Obrigações Em março de 2010, após quase 20 anos de discussão no Congresso, a Câmara aprovou, em votação simbólica, um substitutivo ao projeto de lei que instituiu a PNRS. Sancionada em agosto daquele ano, a lei impõe obrigações aos empresários, aos governos e aos cidadãos no gerenciamento dos resíduos - aquilo que tem valor econômico e pode ser reciclado ou reaproveitado - e na destinação ambientalmente adequada dos rejeitos - aquilo que não pode ser reciclado ou reutilizado. A lei estabelece ainda que os municípios que dispuserem lixo a céu aberto após agosto de 2014 passarão a responder por crime ambiental. As multas previstas vão de R$ 5 mil a R$ 50 milhões. De acordo com levantamento recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre saneamento básico, os lixões a céu aberto representam 51% das unidades de destino final de resíduos nos municípios brasileiros. * Publicado originalmente no site Agência Senado.


por Redação da Agência Senado
A outra face da moeda, o dique La Quebrada, a sete quilômetros de Rio Ceballos, com a água em seu mais baixo nível histórico, em novembro de 2013, como consequência da seca que na época afetou o cordão montanhoso de Sierras Chicas, em Córdoba, na Argentina. Foto: Fabiana Frayssinet/IPS

Tsunami humano causa tragédia em serras argentinas

[caption id="attachment_129984" align="aligncenter" width="540"] Um riacho que transborda e uma estrada danificada no município de Rio Ceballos, nas Sierras Chicas, província de Córdoba, na Argentina, após as inundações do dia 15 deste mês. Ricardo Suárez, diretor do Projeto de Conservação e Reflorestamento das Serras de Córdoba atribui os danos ao alto desmatamento na área. Foto: Cortesia do biólogo Ricardo Suárez[/caption]   Córdoba, Argentina, 27/2/2015 – Fenômenos pluviais atípicos e cada vez mais frequentes na Argentina, como os que provocaram as inundações na província de Córdoba, centro do país, indicam a necessidade cada vez mais imperiosa de políticas de reordenamento territorial e de um combate efetivo ao desmatamento. Definidas pelo governador de Córdoba, José Manuel de la Sota, como “um tsunami que caiu do céu”, as chuvas do dia 15 deste mês afetaram 320 quilômetros quadrados do cordão montanhoso de Sierras Chicas, no noroeste da província, deixaram oito mortos e 1.500 casas destruídas. Ontem, outro forte temporal, desta vez no leste e sudeste de Córdoba, voltou a inundar vários povoados e obrigou à evacuação de mais de 800 pessoas, segundo dados provisórios, mas sem vítimas fatais. “Foi uma catástrofe: pontes quebradas, casas destruídas, uma praça com sua área esportiva já não existe, várias centenas de metros de tubulação que abastecem de água desapareceram. E o mais lamentável, a morte de pessoas”, contou à IPS o ambientalista Ricardo Suárez, morador do município de Río Ceballos, uma das localidades mais afetadas pelas inundações do dia 15. Mas o “tsunami” desse dia, uma metáfora para os 320 milímetros de chuva que caíram em 12 horas nessa região de 300 mil habitantes, “não caiu do céu”, segundo Raúl Montenegro, presidente da Fundação para a Defesa do Meio Ambiente. “Sierras Chicas depredadas, loteadas por imobiliárias, e sem populações preparadas, causaram a tragédia”, resumiu à IPS este biólogo, prêmio Nobel Alternativo, entregue anualmente no parlamento sueco aos que lutam por um futuro melhor para o planeta. “A mão humana interveio para que isso se agravasse”, acrescentou Suárez, diretor do Projeto de Conservação e Reflorestamento das Sierras Chicas de Córdoba. “Praças sobre o rio, casas construídas em suas margens, lixo sem recolher, plantio de árvores exóticas que não se adaptam às cheias, pontes para pedestres e particulares para carros, por todo lado falta de planejamento, de alertas e de prevenção”, detalhou. Segundo Montenegro, a tragédia teve duas causas principais: “precipitações extensas em um curto espaço de tempo e ambientes serranos desmatados”, onde os principais cursos de água nascem. “A deterioração ambiental das serras as transformou em perigosos e imprevisíveis tobogãs que enchem rapidamente os cursos de água”, acrescentou. Federico Kopta, biólogo e presidente do Fórum Ambiental de Córdoba, explicou à IPS a função da vegetação nativa nas montanhas. “Atua como uma espécie de guarda-chuva, evitando que a água tenha impacto direto e desagregue o solo”, explicou. Além disso, junto com suas raízes, “funciona como uma espécie de rede que sustenta o solo e evita que seja arrastado ladeira abaixo”, pontuou. Também age como uma “espécie de esponja, retendo a água na parte superior das serras e administrando-a lentamente”, acrescentou Kopta. Quando essa vegetação desaparece “aumenta a vazão da água na superfície” e com a erosão hídrica e as inundações “resta menos reserva de água durante a estação seca”, ressaltou o especialista. [caption id="attachment_129985" align="aligncenter" width="540"] A outra face da moeda, o dique La Quebrada, a sete quilômetros de Rio Ceballos, com a água em seu mais baixo nível histórico, em novembro de 2013, como consequência da seca que na época afetou o cordão montanhoso de Sierras Chicas, em Córdoba, na Argentina. Foto: Fabiana Frayssinet/IPS[/caption]   A organização Greenpeace atribuiu o aumento de inundações na Argentina à alta taxa de desmatamento, apesar da entrada em vigor, no final de 2007, da Lei para a Proteção das Florestas Nativas, com orçamento específico para sua restauração. Kopta destacou que em Córdoba restam menos de 4% de suas florestas originais. Isso depois que, entre 1998 e 2007, o desmatamento na província, a segunda mais habitada do país, chegou aos 247.967 hectares, e depois que, entre 2007 e 2013, foram eliminados 44.823 hectares, dos quais 10.796 eram florestas protegidas por lei. “Os desmatamentos para desenvolvimento agropecuário e urbano arrasaram as florestas nativas frágeis perdendo a proteção da vegetação frente às fortes chuvas”, diz o Greenpeace em um comunicado do dia 18 deste mês. “Ironicamente, desmatamento, incêndios e avanço imobiliário sobre as serras causam duas crises que se contrapõem: rios sem água no inverno e perigosamente transbordando durante as chuvas de verão”, disse Montenegro, ao recordar que em Córdoba praticamente foram eliminados dois de seus três grandes ecossistemas. O desmatamento “mais violento”, segundo Montenegro, foi na década de 1990 e coincidiu com a introdução na província de cultivos transgênicos (geneticamente modificados) de soja, milho e algodão. A construção de condomínios, indústrias e grandes complexos turísticos também impulsionou o desmatamento em Córdoba, que contribuiu com 8% para o produto interno bruto argentino. Kopta considera que “a mão do homem” influiu duplamente na catástrofe. Em um contexto global, recordou que o aquecimento do planeta gera maior frequência de eventos climáticos extremos, “algo que os cordobeses não podem manejar”. Em um contexto mais local, acrescentou, a tragédia está relacionada com o incorreto uso dos recursos naturais. Nesse sentido, segundo Kopta, a “devastação da vegetação nativa” na cabeceira das bacias, causada por incêndios florestais, desmatamento e invasão de espécies de fora, além do pastoreio em altura, “mudam a dinâmica hídrica do lugar. É urgente limitar os grandes empreendimentos imobiliários e as urbanizações nas montanhas, que agravam o desmatamento, enfatizou. Kopta acrescentou que essas urbanizações se multiplicaram nos últimos 20 anos, “pela grande demanda de gente que, trabalhando na cidade de Córdoba, utiliza Sierras Chicas como dormitório”, o que, por sua vez, gerou ocupações em lugares inundáveis. A capital provincial, de mesmo nome, é a segunda cidade do país e concentra mais de 40% da população da província. “Entende-se que cada vez somos mais e necessitamos de moradia digna, mas é tão pouco o controle que, por exemplo, se autorizou a construção de duas casas próximas a um riacho e, naturalmente, hoje estão inundadas e a rua destruída pelo desvio do próprio riacho”, apontou Suárez. Montenegro pediu que sejam reativados os comitês de bacias hídricas para evitar essas tragédias. Por sua vez, Kopta cobrou a aplicação das leis de planejamento urbano e proteção florestal, para reordenar e proteger o território, incluindo a assessoria de geólogos e especialistas em morfologia da terra. Também considera necessário que as obras de infraestrutura contemplem a nova realidade climática. “Às vezes, quando as pontes não são suficientemente altas, atuam como diques, onde param os troncos e restos de árvores, o que leva às cheias, fazendo a água subir e inundar”, acrescentou. Suarez se referiu a outros casos de “mau planejamento de obras”, como o de estradas, “que não têm avaliação de impacto ambiental”. Kopta recordou que alguns engenheiros propõem obras preventivas com “lagoas de retenção”, para diminuir o escorrimento da água. Mas, ressaltou, antes de tudo “é preciso aumentar a superfície de florestas nativas, o controle de espécies de fora e o cuidado com florestas e pastagens, para evitar que se coloque fogo em áreas de sobrepastoreio”. Esses fenômenos meteorológicos “já não são atípicos”, destacou Suárez, para quem não é paradoxal “que hoje vivemos inundações e há um ano lutávamos por uma gota de água”. Alertou que “isso é o que vamos viver devido ao dano ambiental sofrido. A província já não possui resistência ambiental e qualquer evento se transformará em uma tragédia”, ressaltou. Envolverde/IPS


por Fabiana Frayssinet, da IPS

acesse todas as notícias
Para enviar sua dica ou opinião, preencha o formulário abaixo:

Nome (obrigatório)

E-mail (obrigatório)

Dica/Opinião

agenda

dica de
sustentabilidade

anterior | próxima
Reduza o consumo de papel. Imprima na versão frente e verso.
Diminua custos de limpeza, adotando produtos biodegradáveis e receitas caseiras
Utilize a água usada na lavadora de roupa para lavar o chão da área de serviço, do quintal e da cozinha.
Utilize sabão ou detergente biodegradável, que não poluem os rios porque se decompõem mais facilmente.
Evite a geração de lixo e a produção desnecessária de produtos. Cancele as correspondências que você não lê.
Recolha as roupas do varal com cuidado para não amassar muito e depois dobre. Isso facilita na hora de passar e reduz o tempo de uso do ferro.
Economize. Permanecer 15 minutos com a mangueira aberta pode gastar até 280 litros de água.
Procure ler seus e-mails na tela do computador. Não imprima nada sem absoluta necessidade.
Prefira tecnologias limpas e de baixo consumo energético.
Diminua custos de limpeza, adotando produtos biodegradáveis e receitas caseiras

imagem do dia

|
Para enviar sua imagem, preencha o formulário abaixo:

Nome (obrigatório)

E-mail (obrigatório)

Arquivo

Observações

 
Foto: Gustavo Gargioni/ Especial Palácio Piratini (05/05/2014)

Dilma inaugura nesta sexta parque eólico em Santa Vitória do Palmar. Foto: Gustavo Gargioni/ Especial Palácio Piratini (05/05/2014)

Cabo Verde enfrenta um período de estiagem; ajuda emergencial de 500 mil dólares ajudará a aliviar os efeitos da seca no arquipélago. Foto: PNUD

Cabo Verde enfrenta um período de estiagem; ajuda emergencial de 500 mil dólares ajudará a aliviar os efeitos da seca no arquipélago. Foto: PNUD

Foto: Agência de Notícias Acre

Rio Acre, em Assis Brasil, sobe mais de 8 metros e famílias ficam desabrigadas. Foto: Agência de Notícias Acre

Alto TietêFoto: Diogo Moreira/ A2 FOTOGRAFIA (18/02/2015)

Obra que vai aumentar a entrada de água no Sistema Alto Tietê teve início no sábado, 14. Foto: Diogo Moreira/ A2 FOTOGRAFIA (18/02/2015)

Foto: Prefeitura de Salto

Prefeitura de Salto (SP) retira 40 toneladas de peixes mortos do córrego do Ajudante. O afluente desagua no rio Tietê. Foto: Prefeitura de Salto

protesto_indios_altamira_belo-monte10022015_15

Prostesto: Índios fecham acesso a usina hidrelétrica Belo Monte. Foto: Alison Albuquerque/ Blog do Sidalécio Souza (09/02/2015)

estragos-chuva_fernando-surur-98 (1)

O forte temporal que atingiu Mogi Mirim na tarde desta segunda-feira, derrubou galhos e árvores. Vários pontos do município ficaram sem energia elétrica. Foto: Fernando Surur/ O Popular Digital

Seca-do-Rio-Paraiba-Antonio-Leudo-21

Rio Paraíba do Sul está secando e não deve resolver problema do Cantareira. Foto: Antonio Leudo/ Prefeitura de Campos

Foto: Manoel Marques/Imprensa MG

Barco fica preso na represa de Três Marias, em Minas Gerais. O sistema opera com apenas 10% de sua capacidade. Foto: Manoel Marques/Imprensa MG

CriancasSudaoSul

Sudão do Sul – Mais de 3 mil crianças-soldado foram libertadas. Saiba mais aqui.